XV Congresso da Associação Internacional de Lusitanistas

XV Congresso da Associação Internacional de Lusitanistas

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XV Congresso da Associação Internacional de Lusitanistas

Todo o evento ocorrerá na Universidade de Brasília (UnB) / Campus Darcy Ribeiro.

As conferências serão realizadas no período da manhã, no Auditório, em esquema de grande plenária. Já os circuitos acontecerão em salas distintas no campus da Universidade, a serem designadas oportunamente.

Apresentação

Sob o tema Futuro, o XV Congresso da Associação Internacional de Lusitanistas reunirá em Brasília, capital federal do Brasil, pesquisadores e estudiosos de todos os continentes para uma semana intensa de encontros transdisciplinares, marca da história da AIL desde a sua fundação na década de 1980, na França.

O convite é pensar o futuro a contrapelo. Não apenas como coordenada temporal, mas como questão que nos habita e nos antecede. Escutar o que as narrativas do progresso soterram ou empurram para fora. O XV Congresso da AIL, que acontecerá na UnB (Universidade de Brasília), toma essas tensões como campo de interrogação onde a literatura, a linguagem, a arte, a arquitetura e outros saberes se encontram com a urgência climática e com tudo o que o presente ainda não sabe nomear. Pensar o impensado, como diria Eduardo Lourenço, um dos fundadores da AIL.

Línguas dentro da língua. "Nada que se deu com a língua portuguesa da Europa se compara ao que lhe ocorreu quando ela se fez ao mar", como observa Caetano Galindo em Latim em pó (2023). A potência da diáspora será então outra vez performada. Portugueses leem escritores moçambicanos; angolanos leem autores guineenses; italianos desenvolvem questões teóricas acerca de pensadores portugueses; galegos interpretam macaenses; brasileiros leem cabo-verdianos; macaenses citam versos de poetas de São Tomé.

Talvez seja essa travessia-alegria que mova a todos. Deslocamo-nos com nossos saberes e com as inumeráveis expressões que a diáspora foi capaz de produzir, para pensar e falar essa língua múltipla e, acima de tudo, capaz de criar nas margens, junto a narrativas inauditas.

Programação

O congresso abrigará 19 circuitos de pesquisa em distintas áreas temáticas. Cada circuito terá dois coordenadores, responsáveis pela avaliação das propostas submetidas — com os devidos pareceres — e pelo andamento das sessões, realizadas sempre no período da tarde, de segunda a quinta-feira.

A sexta-feira, 23 de julho, será o dia de encerramento do Congresso, com conferência de encerramento, pela manhã, e toda a tarde dedicada aos passeios turísticos.

O número máximo de inscritos em cada circuito é de 28 pesquisadores.

Clique no menu abaixo para conhecer a programação completa

Circuitos de pesquisa

Diásporas em português: o futuro das heranças

Coordenadores:

Ana Paula Coutinho (Universidadedo Porto) e Silvio Renato Jorge (UniversidadeFederal Fluminense)

Palavras-chave:

diáspora; herança; trânsitos; deslocamentos

Resíduos do futuro: tradução, comparatismo e técnica

Coordenadores:

Maria Aparecida Barbosa (UFSC) e Kelvin Falcão Klein (UNIRIO)

Palavras-chave:

literatura comparada; tradução; estudos literários; técnica; imaginação

Línguas e comunidades

Coordenadores:

Caetano W. Galindo (UFPR) e Simão Valente (FLUP)

Palavras-chave:

variação; língua(s); comunidades; lusofonias; futuro; interculturalidade

A literatura brasileira amanhã

Coordenadores:

Regina Dalcastagnè (UnB); e Lucía Tennina (UBA)

Palavras-chave:

literatura brasileira contemporânea; campo literário; metodologias de pesquisa; futuro

Estudos Africanos: Reparação Histórica à Colonização

Coordenadores:

Miguel de Barros (Centro de Estudos Sociais Amílcar Cabral / Guiné-Bissau) e Tiganá Santana (USP)

Palavras-chave:

colonialismo; reparação histórica; restituição de patrimônio cultural

Utopias em Negativo: sobre planos e futuros urbanos imaginados em português

Coordenadores:

Rita Velloso (EA-UFMG) e Ricardo Trevisan (FAU-UnB)

Palavras-chave:

utopia negativa; imaginação; plano urbano; cidade; território

Estudos Feministas: criar e interpretar epistemologias, geopolíticas e perspectivas ambientais

Coordenadores:

Simone Pereira Schmidt (Universidade Federal de Santa Catarina / Universidade Federal da Paraíba) e Catarina Caldeira Martins (Universidade de Coimbra)

Palavras-chave:

feminismo; decolonialidade; práticas culturais; geopolíticas; epistemologias

Passados sem culpas: nostalgias, fantasmagorias e usos do passado

Coordenadores:

Roberto Vecchi (Università di Bologna) e Francisco Noa (Moçambique)

Palavras-chave:

nostalgia; memória e esquecimento; fantasmagoria; usos do passado

Infâncias

Coordenadores:

Susana Ramos Ventura (Associação de Escritores e Ilustradores de LIJ – AEILIJ/ Brasil) e Luísa Maria Soeiro Marinho Antunes Paolinelli (Univ. da Madeira)

Palavras-chave:

literatura para as infâncias nos países de língua portuguesa; literatura infantojuvenil; questões sociais na literatura para as infâncias; cultura editorial para a infância; imagens para a infância em livros; design em livros para crianças e jovens

O futuro dos clássicos, os clássicos do futuro: o lugar da tradução

Coordenadores:

Marcelo Jacques de Moraes (UFRJ) e Vinícius Carneiro (Univ. de Lille)

Palavras-chave:

tradução literária; autoria; circulação transnacional; canonização

Literaturas e culturas alimentares na história

Coordenadores:

José Newton Coelho Meneses (UFMG) e Rafael Climent-Espino (Baylor University)

Palavras-chave:

comida e cultura; história da alimentação; literatura e comida; práticas culinárias; cozinha

Herança e Memória

Coordenadores:

Margarida Calafate Ribeiro (Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra) e Nazir Ahmed Can (Universitat Autònoma de Barcelona / Cátedra José Saramago)

Palavras-chave:

pós-memória; memória intergeracional; transmissão; guerras de memória; restituição; literatura e artes

Brasis e portugueses: os línguas e as linguas

Coordenadores:

Alexandre Nodari (UFSC) e Bruna Franchetto (Museu Nacional / UFRJ)

Palavras-chave:

línguas indígenas; português indígena; tradução; artes da palavra; literatura indígena

A Poesia de Língua Portuguesa: indagações do presente e trajetos para o futuro

Coordenadores:

Ida Alves (UFF) e Jerónimo Pizarro (Univ. de los Andes)

Palavras-chave:

poesia de língua portuguesa; crítica poética; teoria poética; interculturalidade; estudos comparados

Cartografias da Narrativa: transtemporalidade, intermedialidade e transgressão

Coordenadores:

Carlos Reis (Univ. de Coimbra) e Raquel Trentin de Oliveira (UFSM)

Palavras-chave:

estudos narrativos; interdisciplinaridade; intermedialidade; história.

Imagens do futuro e o futuro das imagens

Coordenadores:

Eduardo Sterzi (Unicamp) e Osvaldo Manuel Silvestre (Univ. de Coimbra)

Palavras-chave:

imagens; imaginação; literatura; artes; futuro

A leitura e a escrita depois do futuro

Coordenadores:

Ana Elisa Ribeiro (Cefet-MG) e Carla Viana Coscarelli (UFMG)

Palavras-chave:

leitura; escrita; tecnologias digitais; multimodalidade; letramento.

O futuro no passado: receção, reescrita e ensino dos “clássicos” nas literaturas de língua portuguesa

Coordenadores:

Valeria Tocco (Univ. de Pisa) e Filipa Araújo (Univ. de Lisboa)

Palavras-chave:

clássicos greco-latinos; clássicos do cânone lusófono; receção e reescrita; tradução dos clássicos; ensino da literatura

Literatura e direitos humanos

Coordenadores:

Regina Zilberman (UFRGS; UEMA; FAPERJ) e Germana Araújo Sales (UFPA)

Palavras-chave:

direitos humanos; literatura indígena; censura; literatura feminina; leitura

Conferencistas confirmados

Djaimilia Pereira de Almeida

Luís Felipe de Alencastro

José Miguel Wisnik e Guilherme Wisnik

Passeios

Ao final do evento, os congressistas poderão optar por uma série de passeios, cujos percursos permitem explorar os espaços desta capital modernista e traçar um panorama de sua arquitetura, história, cultura e natureza, além de conhecer paisagens e o patrimônio histórico de Goiás.

Os agendamentos devem ser feitos pelos próprios participantes diretamente com a agência Brasília Receptivo.

Contatos:
Instagram: @brasiliareceptivo
WhatsApp: +55 (61) 9 8443-0005
E-mail: angela@brasiliareceptivo.com.br

Pôr do sol no Lago Paranoá

Caminhada Brasília Modernista

Visita a Pirenópolis

Dia na Chapada dos Veadeiros

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XV Congresso da Associação Internacional de Lusitanistas

COMITÊ ACADÊMICO

Carlos Ascenso André
Ettore Finazzi-Agrò
Frederico Fernandes
Gilda Santos
Helder Macedo
Ida Alves
Isabel Margarida Duarte
Roberto Vecchi
Sabrina Sedlmayer
Vincenzo Russo

COMITÊ EXECUTIVO

Ana Clara Medeiros
Ana Claudia da Silva
Ana Rüsche
Anderson da Mata
Daniel Teixeira
Erivelto Carvalho
Gabriel Pinezi
Graziele Frederico
Igor Ximenes
Leda Cláudia da Silva
Patrícia Nakagome
Paulo Thomaz
Pedro Mandagará
Regina Dalcastagnè
Rodrigo Araújo

Contato

E-mail: congressoail2027@gmail.com

Para notícias semanais atualizadas, visite o Instagram @ail_lusitanistas

Para obter notícias sobre concursos, bolsas, intercâmbios, congressos,
editais variados, visite o maior portal de informações do mundo da
língua portuguesa: www.plataforma9.com

Diásporas em português: o futuro das heranças

Os fenômenos migratórios, em suas mais diversas faces, constituem-se como um dos traços mais relevantes do contemporâneo, muitas vezes desvelando as contradições das sociedades em que vivemos e a experiência de um tempo que busca na lógica imunitária da exclusão o reavivamento de nacionalismos e dos mais variados processos discriminatórios. Pensar a diáspora – tanto aquela determinada por fatores políticos e econômicos, quanto a derivada de motivações familiares ou profissionais – parece constituir-se como atitude epistemológica e culturalmente relevante, desde logo por ser uma realidade transversal ao mundo da língua portuguesa, e tendo em conta a extensa produção literária e artística que a ela se tem vindo a referir e que tenderá ainda a aumentar. O circuito aqui proposto pretende, pois, discutir os processos diaspóricos que permeiam os países de língua portuguesa, considerando questões históricas e sociais, bem como as linguísticas e, de modo mais amplo, artísticas e literárias. Trata-se de uma proposta transdisciplinar, que investe na multiplicidade de olhares como instrumento capaz de elaborar reflexão atual e consistente sobre a diáspora que, naturalmente congrega em si experiências migratórias e exílicas, à escala individual e coletiva. Nesse sentido, procurar-se-á dar ênfase ainda a questões relacionadas à exiliência (Nouss, 2016), no que tange às segundas e terceiras gerações dos movimentos migratórios, analisando o que nelas muda e permanece na forma como se relacionam com a língua, a arte e a sociedade quer das suas origens, quer do lugar onde foram alegadamente acolhidos, onde estão radicados, ou onde, inclusive, já nasceram.

Palavras-chave:

diáspora; herança; trânsitos; deslocamentos

Referências

AGAMBEN, Giorgio. Quando a Casa Queima. Trad. Vinícius Nicastro Honesko. Belo Horizonte: Âyiné, 2020.

DI CESARE, Donatella. Estrangeiros Residentes: uma filosofia da migração. Trad. Cézar Tridapalli. Belo Horizonte: Âyiné, 2020.

CANAGARAJAH, Suresh (ed). The Routledge Handbook of Migration and Language, New York, Routledge, 2020.

DUFOIX, Stéphane. Diasporas. Translated by William Rodarmor. University of California Press, 2008.

GILROY, Paul. The Black Atlantic. Modernity and Double Consciousness, Verso, 2022 [1993].

HALL, Stuart. Diáspora. Identidades e mediações culturais. Org. de Liv Sovik. Belo Horizonte, UFMG, 2003.

HISSA, Cássio Eduardo Viana. A Mobilidade das Fronteiras: inserções da geografia na crise da modernidade. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002.

MENDES, Ana Paula Coutinho. Lentes Bifocais. Representações da Diáspora do Século XX. Porto, Edições Afrontamento/ILCML, 2009.

NOUSS, Alexis. Pensar o Exílio e a Migração Hoje. Trad. E nota de abertura Ana Paula Coutinho. Porto: Afrontamento; ILCML, 2016.

SAID, Edward W. Reflections on Exile and Other Essays. 4.ed. Cambridge, Massachusetts: Harvard University Press, 2003.

SADLER, Darlene J. A Diáspora em Língua Portuguesa. Sete Séculos de Literatura e Arte. Lisboa, INCM, 2009.

SANTIAGO, Silvano. O cosmopolitismo do pobre: Critica literária e critica cultural. Belo Horizonte, Editora UFMG, 2004.

Resíduos do futuro: tradução, comparatismo e técnica

Este circuito de pesquisa convida colegas pesquisadores para um diálogo que parte dos estudos em língua portuguesa e reflete acerca de possibilidades e modulações do FUTURO. A proposta é que tal diálogo ocorra na problematização das manifestações de sistemas estéticos em linguagens artísticas da literatura, da filosofia, da música, do cinema e do teatro, pensando, em paralelo, por meio de um corte teórico transversal que dê conta das ciências humanas de forma ampla. Nisso, acolhemos as reflexões de Peter V. Zima (2011) em prol de uma revisão do instrumental teórico e das funções da Literatura Comparada, com particular atenção aos estudos da tradução, revisitados por meio de um postulado de Walter Benjamin em seu ensaio sobre a obra de arte e a técnica: ele fala da propriedade/perenidade que certas obras às vezes revelam em função do estatuto particular como "figuras de proa" que assumem em meio às circunstâncias históricas donde surgem; pelo seu conteúdo latente, atravessadas que são por reflexos de futuro, tais obras legam uma herança fecunda e seguem irradiando influência. Evocando o poema "O mito da rocha furada", de Ivan Goll, e sua ideia-norte que ao afã se contrapõe a fleuma do porvir, propomos algumas questões: Somos capazes de imaginar futuros? Qual o papel da técnica/tecnologia nessa relação entre imaginação e futuro? Como se dá, em outras palavras, a relação entre a criatura e a máquina? De que forma a projeção de futuros realizada em nosso presente se vale de futuros projetados no passado? São esses "resíduos" de futuros abandonados que interessam a este circuito de pesquisa, tanto suas aparições em obras artísticas quanto seus ecos epistemológicos em obras crítico-teóricas.

Palavras-chave:

literatura comparada; tradução; estudos literários; técnica; imaginação

Referências

AVANESSIAN, Armen. Metaphysik zur Zeit. Leipzig: Merve Verlag, 2018.

BENJAMIN, Walter. A obra de arte na época da possibilidade de sua reprodução técnica (5a versão). In: Estética e sociologia da arte. Edição e tradução João Barrento. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2017, p. 207-241.

BERARDI, Franco. Depois do futuro. Tradução de Regina Silva. São Paulo: Ubu Editora, 2019.

KOSELLECK, Reinhart. Futuro passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. Tradução de Wilma Patrícia Maas e Carlos Almeida Pereira. Rio de Janeiro: Contraponto, 2006

LERNER, Ben. 10:04. Tradução de Maira Parula. Rio de Janeiro: Rocco, 2018.

ZIMA, Peter V. Komparatistik – Einführung in die Vergleichende Literaturwissenschaft (Comparativismo – Introdução à Literatura Comparada). 2. ed. rev. Tübingen e Basel: A. Francke, 2011.

Línguas e comunidades

Os fenômenos migratórios, em suas mais diversas faces, constituem-se como um dos traços mais relevantes do contemporâneo, muitas vezes desvelando as contradições das sociedades em que vivemos e a experiência de um tempo que busca na lógica imunitária da exclusão o reavivamento de nacionalismos e dos mais variados processos discriminatórios. Pensar a diáspora – tanto aquela determinada por fatores políticos e econômicos, quanto a derivada de motivações familiares ou profissionais – parece constituir-se como atitude epistemológica e culturalmente relevante, desde logo por ser uma realidade transversal ao mundo da língua portuguesa, e tendo em conta a extensa produção literária e artística que a ela se tem vindo a referir e que tenderá ainda a aumentar. O circuito aqui proposto pretende, pois, discutir os processos diaspóricos que permeiam os países de língua portuguesa, considerando questões históricas e sociais, bem como as linguísticas e, de modo mais amplo, artísticas e literárias. Trata-se de uma proposta transdisciplinar, que investe na multiplicidade de olhares como instrumento capaz de elaborar reflexão atual e consistente sobre a diáspora que, naturalmente congrega em si experiências migratórias e exílicas, à escala individual e coletiva. Nesse sentido, procurar-se-á dar ênfase ainda a questões relacionadas à exiliência (Nouss, 2016), no que tange às segundas e terceiras gerações dos movimentos migratórios, analisando o que nelas muda e permanece na forma como se relacionam com a língua, a arte e a sociedade quer das suas origens, quer do lugar onde foram alegadamente acolhidos, onde estão radicados, ou onde, inclusive, já nasceram.

Palavras-chave:

variação; língua(s); comunidades; lusofonias; futuro; interculturalidade

Referências

ASTRO, Yeda Pessoa de. Camões com dendê: o português do Brasil e os falares afro-brasileiros. Rio de Janeiro: Topbooks, 2022.

BUESCU, Helena Carvalhão. Experiência do incomum e boa vizinhança: literatura comparada e literatura-mundo. Porto: Porto Editora, 2013.

FARACO, Carlos Alberto. História sociopolítica da língua portuguesa. São Paulo: Parábola Editorial, 2016.

LUCCHESI, Dante; BAXTER, Alan N.; RIBEIRO, Ilza (org.). O português afro-brasileiro. Salvador: EDUFBA, 2009.

LUCCHESI, Dante. Língua e sociedade partidas: a polarização sociolinguística do Brasil. São Paulo: Contexto, 2015.

MATTOS E SILVA, Rosa Virgínia. O português são dois: novas fronteiras, velhos problemas. São Paulo: Parábola Editorial, 2004.

ROCHA, João Cezar de Castro (ed.). Lusofonia and Its Futures. Massachusetts-Dartmouth: Tagus Press, 2013.

LOURENÇO, Eduardo. Do Brasil: fascínio e miragem. Lisboa: Gradiva, 2015.

A literatura brasileira amanhã

“O passado está para acontecer. É agora. Vai ser amanhã”, diz o escrivão de A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, romance de Joca Reiners Terron, publicado em 2013. Para além do jogo temporal explicitado na citação, nos resta um alerta sobre a importância de se conhecer o passado para imaginar o futuro, ou para construí-lo.A proposta deste circuito envolve a reflexão sobre os desafios e as possibilidades da literatura brasileira nos anos que virão, diante de disputas sociais cada vez mais acirradas, que se manifestam também em relação à criação artística – incluindo questionamentos da liberdade de expressão, embates sobre “lugares de fala” e o enfrentamento (ou a adesão) às chamadas inteligências artificiais generativas.Trata-se de lidar com projeções, mas também de pensar “a partir daqui”. Como o campo literário e seus agentes (escritores, editores, críticos, professores, tradutores, revisores, bibliotecários, livreiros etc.) reagirão às diferentes demandas e como estabeleceremos novas metodologias para o estudo de um universo que se faz sempre mais complexo.Além de questões mais abrangentes, que podem incluir desde reflexões sobre a produção do livro até o ensino da literatura, passando pela concentração do mercado editorial e livreiro, pelo papel dos influenciadores digitais e pelos desafios à construção do hábito da leitura, o circuito abarcará ainda análises focadas em assuntos e estilos que vêm se fortalecendo nos últimos tempos, como o enquadramento das temáticas de minorias e do meio ambiente, a autoficção e mesmo a onda de censura e autocensura que atinge escritores e textos literários.

Palavras-chave:

literatura brasileira contemporânea; campo literário; metodologias de pesquisa; futuro

Referências

DALCASTAGNÈ, Regina. Uma história da literatura brasileira contemporânea: a narrativa. São Paulo: Todavia, 2026. 

FIGUEIREDO, Eurídice. A nebulosa do (auto)biográfico: vidas vividas, vidas escritas. Porto Alegre: Zouk, 2022.

HORNE, Luz. Futuros menores: filosofias do tempo e arquiteturas do mundo. Trad. Luciana Di Leone e Diana Klinger. São Paulo: N-1 Edições, 2025.

PEREIRA, Edimilson de Almeida. Orfe(x)u e Exunoveau: análise de uma estética de base afrodiaspórica na literatura brasileira. São Paulo: Fósforo, 2022.

PETIT, Michèle. Ler o mundo: experiências de transmissão cultural nos dias de hoje. Trad. Julia Vidile. São Paulo: Editora 34, 2019. 

RODRIGUES, Sérgio. Escrever é humano: como dar vida à sua escrita em tempo de robôs. São Paulo: Companhia das Letras, 2025.

ROUXEL, Annie, Gérard Langlade e Neide Luzia de Rezende (Org.). Leitura subjetiva e ensino de literatura. Trad. Amaury C. Moraes et al. São Paulo: Alameda, 2013.

TENNINA, Lucía. Crítica anfíbia: métodos y espacios de acción de los estudios de la literatura en la contemporaneidad. Buenos Aires: Tren en Movimiento, 2025.

ZOZEL, Andrés, Martín Bergel e Valeria Llobet (Ed.). El futuro: miradas desde las Humanidades. San Martín: UNSAM EDITA, 2019

Estudos Africanos: Reparação Histórica à Colonização

O debate sobre reparação histórica a séculos de escravidão e colonialismo tem ganhado impulso nos tribunais internacionais e a União Africana adotou uma resolução que reconhece a escravatura e o colonialismo como "crimes contra a humanidade". Esta iniciativa, impulsionada pelo Gana, estipulou que 2026-2036 será a "Década das Reparações". Esse esforço continental culminou com a aprovação de uma resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas em março de 2026. O texto obteve 123 votos a favor, 52 abstenções (maioritariamente por nações europeias como Portugal, Espanha e Reino Unido) e 3 votos contra (Estados Unidos, Israel e Argentina).
Contudo, transformar o reconhecimento formal desses crimes em medidas concretas esbarra em complexidades políticas, económicas jurídicas e logísticas ao redor do mundo. As narrativas envolvem compensações políticas, económicas e culturais pelas potências coloniais na perspectiva de justiça estrutural e tem avançado globalmente através da exigência de perdão de dívidas, transferência de tecnologia, restituição de património, investimentos em infraestruturas e, restruturação do sistema de ensino de história e, pontualmente, compensações financeiras diretas.  
Embora estudos estimem indemnizações na casa dos trilhões de dólares, não há consenso internacional sobre metodologias de cálculo para as perdas económicas e humanas acumuladas. Muitas potências ocidentais evitam o termo legal "reparação" para não abrir precedentes que gerem responsabilidade jurídica vinculativa. Indemnizações passadas, como as pagas pela Alemanha à Namíbia, foram tratadas politicamente como "gestos de reconciliação".
A restituição do património histórico e cultural concretizado através da devolução de artefatos, restos mortais e documentos saqueados durante as invasões coloniais tem gerado debate sobre as exigências em torno das responsabilidades e condições dos Estados, das instituições financeiras e culturais, da legislação sobre a adequabilidade, a logística e segurança, acesso público e democrático para receber e abrigar esse acervo de volta às origens. 
O desafio passa por formular reparações capazes de superar acessório relativamente ao seu formato e centrar na superação do racismo estrutural alicerçado na representatividade, de modo a serem promovidas políticas públicas que reconheçam e divulguem a verdadeira dimensão da violência colonial e da escravatura, que contribuam para a erradicar todas as formas de colonialidade.

Palavras-chave:

colonialismo; reparação histórica; restituição de patrimônio cultural

Referências

ACHPR, (2026), “RESOLUÇÃO EM PREPARAÇÃO DO TEMA DA UA PARA 2025 “JUSTIÇA PARA OS AFRICANOS E PESSOAS DE ASCENDÊNCIA AFRICANA ATRAVÉS DE REPARAÇÕES” ATRAVÉS DE CONSULTAS SOBRE AFRODESCENDENTES, INDÍGENAS/ÉTNICOS, ANCESTRAIS, REPARAÇÕES E A 6ª REGIÃO CADHP/Res.616 (LXXXI)” in https://achpr.au.int/pt/adopted-resolutions/616-atraves-de-reparacoes-atraves-de-consultas-sobre-afrodescendentes-indigenas

Accra (2023) Proclamation on Reparations' União Africana (Acra) 14 a 17 de novembro de 2023, https://au.int/sites/default/files/decisions/43383-Declaration_-_CID0_.pdf

ACHPR/Res.543 (LXXIII) (2022) - Resolution on Africa's Reparations Agenda and The Human Rights of Africans in the Diaspora and People of African Descent Worldwide. 

'Assembly/AU/Dec.884(XXXVII) (2024) - Decision on Building a United Front to Advance the Cause of Justice and the Payment of Reparations to Africans (in Implementation of the Assembly Decision Assembly/AU/Dec.847(XXXVI))' União Africana (17-18 fevereiro de 2024), https://portal.africa-union.org/DVD/Documents/D0C-AU-DEC/Assembly%20AU%20DEC%20884%20(XXXVII)%20_E.pdf

E Etieyibo (2011) 'Political reparations and the moral case for reparations to Africa for colonialism' 40 African Insight 25

D Shelton (2015)  'Reparations' Max Planck Encyclopedia of Public International Law

G McDougall (2022) 'Examining (il)legality of transatlantic chattel slavery under international law - part II' in J Stefanell & E Lovall (eds) Reparations under international law for enslavement of African persons in the Americas and the Caribbean: proceedings of the symposium 53.

JA Mavedzenge (2024) 'Towards a framework of reparatory measures for the enslavement and colonisation of the African people' 24 African Human Rights Law Journal 399

K Theurer (2022) 'Racism as an obstacle to reparations for colonial crimes? the doctrine of intertemporal law in the German-Namibian context' 53 Netherlands Yearbook of International Law 265

R Cabecinhas e M de Barros (2022) «Knowledge Production, Historical Reparation and Construction of Alternative Futures. Interview With Miguel de Barros», Comunicação e sociedade [Online], 41 http://journals.openedition.org/cs/7157

The Abuja Proclamation (1993), A declaration of the first Abuja Pan-African Conference on Reparations For African Enslavement, Colonization And Neo-Colonization, sponsored by The Organization Of African Unity and its Reparations Commission April 27-29, Abuja, Nigeria', 
https://ncobra.org/resources/pdf/TheAbujaProclamation.pdf 
(Abuja Proclamation)

Utopias em Negativo: sobre planos e futuros urbanos imaginados em português

Utopias são ficções que, desde Thomas Morus, representam ideias políticas por meio de lugares imaginados segundo instituições, organizações, estruturas, formas de vida e governo. Do mesmo modo, utopias arquitetônicas e urbanas traduzem ideias de ordem e são – desde que surgiram – afirmativas: esboçam  lugares, descrevem e representam espacialmente suas normas. Para a direção em que apontam, há um lugar de chegada: é uma realização imaginada cuja ideia geral apresenta-se como um sistema coerente e  abrangente. O sentido de uma utopia afirmativa ou positiva é o de um projeto global a fazer-se.
Em contrapartida, estabelecido pela crítica de arquitetura e urbanismo  em torno de 1970, o conceito de utopia negativa passou a designar certos discursos, experimentos, projetos e obras que, ao se realizarem, criticam a situação histórica em que se inserem. O negativo tem, ali, o sentido de uma dialética que reconhece e expõe as tensões atuantes na produção dos espaços urbanos. Uma ideia arquitetônica em negativo é a de um espaço que não precisa se realizar como projeto global, mas que, traduzida em imagens e em espaços de escalas diversas, é uma forma-limite. Para a direção em que aponta uma utopia negativa, não precisa haver um ponto de chegada, mas sim a demonstração de sua própria impossibilidade no presente. O valor de uma utopia arquitetônica negativa é instalar o espaço entre o que há e o que ainda poderá vir a existir. 
No século XXI, houve uma migração e/ou hibridização das utopias negativas para além dos textos dos estudos urbanos. Elas estão presentes, de modo incisivo,  nos textos ficcionais. Ali, podem ser às vezes arquitetura-obra, às vezes arquitetura-paisagem, mas sempre expõem lugares que não corrigem nem aperfeiçoam o mundo real: podem mostrar o seu contrário – a exaustão do real.  Nesse circuito queremos discutir a presença  desse conceito na literatura contemporânea de língua portuguesa. São bem-vindos os textos e as pesquisas que dialoguem com os desdobramentos desse conceito  em  narrativas ficcionais e ensaísticas que dão conta da representação de cidades e de modos de vida urbanos. Se as narrativas ficcionais indagam sobre os impasses a que levam os lugares existentes, abrindo frestas para que se possa ver o seu avesso, nossa expectativa é dialogar sobre o horizonte de possibilidades dessa imaginação utópica em negativo em termos de sua  implicação nas muitas ordens que vigoram em nosso presente histórico.

Palavras-chave:

utopia negativa; imaginação; plano urbano; cidade; território

Referências

BRANDÃO, Ignacio de Loyola. Não verás país nenhum. Rio de Janeiro: Codecri, 1981

CRUZ, Eliana Alves. O crime do Cais do Valongo. Rio de JAneiro, Malê, 2018

BACKES, Marcelo. A casa cai. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

FIGUEIREDO, Isabela. Caderno de memórias coloniais. São Paulo: Todavia, 2018.

LINO, Patrícia. O kit de sobrevivência do descobridor português no mundo anticolonial. São Paulo: Círculo de Poemas, 2024.

FALERO, José. Os supridores. São Paulo: Todavia, 2020

FERREIRA, Evandro Affonso. Nunca houve tanto fim como agora. São Paulo: Record, 2017.

PACKER, Rob. A previsão do tempo para navios. São Paulo: Círculo de Poemas, 2022.

GONÇALVES, SCHEILLA NUNES. Mulheres dos escombros. A condição das mulheres periféricas em tempos de catástrofes. Rio de Janeiro: REVAN, 2019.

NUNES, Zita. Democracia Canibal: Raça e representação na literatura das Américas. São Paulo: Fósforo, 2024.

ELGAS, Os bons ressentimentos: Ensaio sobre o mal estar pós-colonial. São Paulo: sobinfluencia edições, 2025

GLISSANT, Édouard. Tratado do todo-mundo. São Paulo: n-1 edições, 2024.

MEZZADRA, Sandro. A condição colonial: História e política no presente global.

DALCASTAGNÈ, Regina; BARRAL, Gislene. (org.) Literatura e Cidades. Porto Alegre: Zouk, 2019. 

GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo Afro-Latino-Americano. Rio de Janeiro: ZAHAR, 2020.

TREVISAN, Ricardo. Cidades Novas. Brasília: EdUNB, 2020.

VELLOSO, Rita. Urbano-Constelação. Belo Horizonte: Cosmópolis/UFMG, 2022

Estudos Feministas: criar e interpretar epistemologias, geopolíticas e perspectivas ambientais

Segundo Elizabeth Grosz (1996)*, o feminismo deve ser entendido como uma “prática teórica”, “uma prática que implica escrever, ler, ensinar, aprender, avaliar e muitos outros rituais e procedimentos”, assim também como “uma teoria prática”, ou seja, “uma ferramenta ou tática que cumpre uma função muito importante no assalto subversivo, e com frequência perigoso, a um lugar particular do funcionamento das relações de poder patriarcais, a saber, a esfera do conhecimento” (1996, p. 100).Esta proposição ganha particular relevância quando, com Gayatri Spivak (1999) entendemos o género como a matriz fundamental da produção de diferença e hierarquia, ou, com María Lugones, estendemos conceito de patriarcado a todo um sistema, nomeado por como o ‘sistema moderno-colonial de gênero’ (2008, p.16). Assim, é possível mapear e analisar, de um ponto de vista feminista, todo um quadro de colonialidades persistentes, manifestas na crise ambiental e injustiça climática sem precedentes e em profundas desigualdades locais e globais, atacando conquistas identitárias significativas, de classe, gênero, raça, etnia, sexualidade. Todo esse quadro diz muito sobre nosso presente e também sobre o futuro - aquele que vislumbramos e que não desejamos. Os feminismos têm colocado em debate e formulado propostas para todas as questões apontadas nesse quadro. A atuação dos estudos feministas na investigação e nas práticas culturais contemporâneas, tais como a literatura, o cinema, as artes visuais, midiáticas e performáticas, a música etc., reveste-se de uma radicalidade política e epistemológica que é constitutiva do próprio feminismo. Assim, podemos entendê-lo como resposta contundente aos desafios do presente, bem como, um projeto para o futuro, avaliando que planeta desejamos, que utopias estão sendo gestadas, em ato estético e político de resistência e de construção de outros mundos.Neste circuito de pesquisa, convidamos à apresentação de propostas que, transdisciplinarmente e em várias linguagens, se insiram nesta problematização das persistentes desigualdades e na proposição de um novo mundo feminista possível.

*Grozs, Elizabeth (1996), “Qué es la teoría feminista?”. Trad. Monica Mansur. Debate Feminista, México, p. 85-105, 1996. 

Lugones, María (2008), “Colonialidad y género: hacia un feminismo descolonial”. In: Mignolo, Walter (org.). Género y descolonialidad. Buenos Aires; Del Signo, 2008. p. 13-54. 

Spivak, Gayatri (1999), A Critique of Postcolonial Reason. Toward a History of the Vanishing Present. Cambridge/London: Harvard University Press.

Palavras-chave:

feminismo; decolonialidade; práticas culturais; geopolíticas; epistemologias

Referências

Grozs, Elizabeth (1996), “Qué es la teoría feminista?”. Trad. Monica Mansur. Debate Feminista, México, p. 85-105, 1996. 

Hartman, Saidiya (2021),  Perder a mãe: Uma jornada pela rota atlântica da escravidão. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo. 

Krenak, Ailton (2019), Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras.

Lugones, María (2008), “Colonialidad y género: hacia un feminismo descolonial”. In: Mignolo, Walter (org.). Género y descolonialidad. Buenos Aires; Del Signo, 2008. p. 13-54. 

Lugones, María (2014), “Rumo a um feminismo descolonial”. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v.22, n.3, p.935-952.

Martins, Catarina C. (2024), Mulheres, Raça e Etnicidades: Introdução aos Feminismos Decoloniais. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra

Miñoso, Yurdekys Espinosa (2023),  Feminismo descolonial: nuevos aportes teórico-metodológicos a más de una década. Madrid: Editorial Popular/En La Frontera.

Oyëwùmi Oyèrónke (2021), A invenção das mulheres: construindo um sentido africano para os discursos ocidentais de gênero. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo.

Schneider, Liane; Deplagne, Luciana C; Schmidt, Simone P. (orgs.) (2022), Dossiê: “Leituras decoloniais e feministas na literatura e outras artes”. Revista Ártemis, vol. XXXIV nº 1. 

Segato, Rita Laura (2021). Crítica da colonialidade em oito ensaios. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo.

Spivak, Gayatri (1999), A Critique of Postcolonial Reason. Toward a History of the Vanishing Present. Cambridge/London: Harvard University Press.

Spivak, Gayatri C (2010), Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.

Vergès, Françoise (2020), Um feminismo decolonial. São Paulo: Ubu Editora, 2020.

Passados sem culpas: nostalgias, fantasmagorias e usos do passado

A proposta pretende refletir sobre os modos como as sociedades contemporâneas mobilizam o passado através de mecanismos de nostalgia, memória e fantasmagoria no reuso do passado. Em um contexto marcado pela incerteza em relação ao futuro, observa-se uma crescente tendência para revisitar tempos pretéritos, frequentemente convertidos em espaços de estabilidade imaginada, autenticidade perdida ou pertença afetiva. A nostalgia surge, assim, não apenas como sentimento individual, mas como dispositivo cultural capaz de reconfigurar memórias coletivas e produzir narrativas de identidade.Partindo da noção de “passados sem culpas”, o estudo propõe analisar as formas pelas quais determinados períodos históricos são recuperados, filtrados e idealizados, muitas vezes através de processos seletivos que silenciam conflitos, tensões e ambiguidades. Interessa compreender como esses usos do passado se articulam com fenómenos de consumo cultural, patrimonialização e circulação digital de memórias, produzindo aquilo que pode ser descrito como fantasmagorias: imagens persistentes, afetivamente carregadas, que retornam sob a forma de simulacros, citações ou reconstruções.A proposta procura ainda discutir as relações entre memória, pós-memória e imaginação histórica, interrogando o papel desempenhado pelas ausências, pelos indícios, pelos silêncios e pelos esquecimentos na constituição das narrativas sobre o passado. Neste quadro, conceitos como reconstrução, reuso e tradução se tornam fundamentais para pensar a dimensão ética da relação com a temporalidade. Mais do que reproduzir um passado perdido, toda evocação implica uma reformulação situada no presente.A partir  destas questões, pretende-se contribuir para uma reflexão crítica sobre a forma como as sociedades contemporâneas constroem, disputam e habitam os seus passados, entre a memória, o desejo e a imaginação.

Palavras-chave:

nostalgia; memória e esquecimento; fantasmagoria; usos do passado

Referências

Boym, Svetlana (2001): The future of nostalgia. New York: Basic books.

Gilroy, Paul (2004): After empire. Melancholia or convivial culture? London: Routledge. 

Jankélévitch, Vladimir (2010): L'irreversible et la nostalgie. Paris: Flammarion.

Lourenço, Eduardo (1999): Portugal como destino seguido da mitologia da saudade. Lisboa: Gradiva.

Vecchi, Roberto (2025): Fantasmagorias do retorno. Portugal e a nostalgia colonial. Porto: Afrontamento.

Infâncias

A literatura para as infâncias nos países de língua portuguesa  tem sido o início da formação leitora e não só. Confluência de palavras e imagens em suporte físico ou digital, é arte que se molda às diversas gerações que se sucedem. Campo de pesquisa dos mais amplos, reúne  artistas plásticos, designers, escritores, programadores, arquitetos e estudiosos dos mais diversos ramos do saber em busca de construir obras para o século XXI e estudiosos, investigadores e educadores que buscam compreender a história desse particular ramo da literatura. Que livros fazemos e para que leitores? Qual a realidade social que recebe anualmente milhares de títulos novos em nossos países? Quais as demandas de grupos minoritários que chegam em anos recentes a serem protagonistas de história, poesia, dramaturgia e de livros de imagens? Qual o lugar da crítica em tempos que são também de censura e do avanço de radicalismos que fiscalizam e por vezes condenam obras para jovens leitores? O circuito de pesquisa “Literatura para as infâncias em língua portuguesa: caminhos e desafios” contempla essas e outras questões.

Palavras-chave:

literatura para as infâncias nos países de língua portuguesa; literatura infantojuvenil; questões sociais na literatura para as infâncias; cultura editorial para a infância; imagens para a infância em livros; design em livros para crianças e jovens

Referências

Ana Margarida Ramos – Livros de palmo e meio. Caminho – Lisboa - 2007

Aline Frederico; Elizabeth da Penha Cardoso · Literatura digital para crianças e jovens: teoria e prática da experiência estética · Educ - São Paulo – 2024

João Luís Ceccantini; Eliane Galvão; Thiago Alves Valente – Literatura infantil e juvenil na fogueira. Aletria – Minas Gerais – 2025

José António Gomes; Blanca-Ana Roig Rechou - Grandes Autores para Pequenos Leitores: Literatura Infantil e Juvenil – Elementos para a Construção de um Cânone – Deriva – Porto – 2007

Márcia Licá (organizadora) – Infâncias e leituras: Presenças negras e indígenas na literatura infantil – Pulo do Gato – São Paulo - 2025

Ninfa Parreiras – Do ventre ao colo, do som à literatura -  RHJ – Minas Gerais - 2012

O futuro dos clássicos, os clássicos do futuro: o lugar da tradução

Pensar um clássico na história da literatura frequentemente significa reconhecer a possibilidade de transformar nomes próprios em adjetivos, penetrando, assim, o senso comum. “Homérico”, “dantesco” e “kafkiano”, por exemplo, além de qualificarem o universo ou o estilo de Homero, Dante e Kafka, evocam uma percepção de mundo nem sempre diretamente associada às suas obras, sendo utilizados como sinônimos de “grandioso”, “diabólico” e “absurdo”, respectivamente. Tal sorte está ligada ao que Walter Benjamin chamou de “fama” das obras, a que traduções, retraduções, adaptações e transposições para línguas, gêneros e mídias diversos se devem ao mesmo tempo que a desdobram, permitindo sua constante reapropriação por épocas e públicos distintos. Como sugere Italo Calvino, um clássico é um livro que “nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”, reprojetando-se incessantemente sob novas formas de vida. Paradoxalmente, esse afastamento da obra original a partir de suas variações contribui para consagrá-la, perpetuando a notoriedade do seu autor e produzindo essa estabilização de sua dimensão significante em torno de um nome comum.

Nossa proposta é discutir, no âmbito das teorias e práticas da tradução literária, aspectos dessa fortuna de uma obra e da projeção de seu futuro: seja desde suas sucessivas reapropriações, que, se reconfirmam sua fama, sempre pleiteiam a renovação de seu(s) sentido(s); seja desde a aposta radical de uma apropriação tradutória primeira, em determinado contexto, de uma obra ainda desconhecida, cujo futuro – seu potencial de encontrar hospitalidade em diferentes línguas e territórios – ela passa, assim, a reivindicar.

Pensamos especialmente na reflexão sobre questões relacionadas à autoria da escrita tradutória (invisibilizada, compartilhada, rasurada); à inevitável tensão entre contemporaneidade e anacronismo que a permeiam; à relação entre línguas, territórios e culturas que ela mobiliza (desafiando fronteiras e nacionalismos, centros e periferias, implicando práticas translíngues); e ao futuro da língua portuguesa (como língua tradutora ou traduzida).

Palavras-chave:

tradução literária; autoria; circulação transnacional; canonização

Referências

APTER, Emily. Against World Literature: On the Politics of Untranslatability. London: Verso, 2013.

BENJAMIN, Walter. A tarefa do tradutor. Quatro traduções para o português. Trad. de Fernando Camacho, Karlheinz Barck e outros, Susana Kampff Lages e João Barrento. Organização de Lúcia Castello Branco. Belo Horizonte: Fale/UFMG, 2008. 

BHABHA, Homi K. O local da cultura. Trad. de Myriam Ávila et al. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1998.

BOURDIEU, Pierre. As regras da arte: gênese e estrutura do campo literário. Trad. de Maria Lúcia Machado, São. Paulo: Companhia das Letras, 1996.

CALVINO, Italo. Por que ler os clássicos. Trad. de Nilson Moulin. São Paulo: Companhia das Letras, 1993. 

CAMPOS, Haroldo de. Transcriação. Organização de Marcelo Tápia e Thelma Médici Nóbrega. São Paulo: Perspectiva, 2013.

CASSIN, Barbara. Elogio da tradução: Complicar o universal. Trad. de Simone Petry e Daniel Falkembach. São Paulo: Martins Fontes, 2022.

DERRIDA, Jacques. O monolinguismo do outro. Tradução de Fernanda Bernardo. Porto: Campo das Letras, 2001.

DIAGNE, Souleymane Bachir. De langue à langue – L’hospitalité de la traduction. Paris: Albin Michel, 2022. 

GAMBIER, Yves. “La retraduction: ambiguïtés et défis”. In: MONTI, E.; SCHNYDER, P. (orgs.) Autour de la retraduction. Paris: Orizons, 2012, p. 49-67.

GLISSANT, Édouard. Introdução a uma poética da diversidade. Trad. de Enilce Albergaria Rocha. Juiz de Fora: Editora da UFJF, 2005. 

MIGNOLO, Walter. The Darker Side of the Renaissance: Literacy, Territoriality, and Colonization. Ann Arbor: University of Michigan Press, 1995.

NIRANJANA, Tejaswini. Siting Translation: History, Post-Structuralism, and the Colonial Context. Berkeley: University of California Press, 1992.

SAMOYAULT, Tiphaine. Toutes sortes de Misérables. Paris: Seuil, 2026.

SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar? Tradução de Sandra Regina Goulart Almeida. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.

Literaturas e culturas alimentares na história

Propõe-se, por meio deste circuito de pesquisa, a abertura de um espaço interdisciplinar de reflexão crítica sobre as múltiplas relações entre literatura, cultura alimentar e história no âmbito do mundo lusófono. Partindo da compreensão da alimentação como prática material, simbólica e política, o evento busca reunir pesquisadoras e pesquisadores interessados em examinar como os alimentos, as cozinhas, os hábitos alimentares e as representações da comida atravessam textos literários, discursos culturais e processos históricos em Portugal, no Brasil, nos países africanos de língua portuguesa, em Timor-Leste e nas diásporas lusófonas.

A comida, como marcador identitário e dispositivo de memória, tem desempenhado um papel central na constituição de imaginários sociais, nas dinâmicas coloniais e pós-coloniais, nas relações de poder, bem como nas formas de resistência cultural. Na literatura, ela surge tanto como tema quanto como estrutura narrativa, articulando questões de classe, gênero, raça, território, trabalho, escassez e abundância. Este congresso pretende, assim, explorar a alimentação como categoria analítica capaz de iluminar continuidades e rupturas históricas, bem como processos de circulação cultural no espaço lusófono.

Convidam-se propostas de comunicação que dialoguem com, mas não se limitem aos seguintes eixos temáticos:

- Representações da comida e da fome na literatura em língua portuguesa.
- Alimentação, colonialidade e pós-colonialidade.
- Cozinhas, identidades nacionais e regionais em língua portuguesa.
- Culturas alimentares, memória e patrimônio.
- Escrita e receituários.
- Discursos sobre comida.
- Alimentação, corpo e gênero na história cultural.
- Circulação de ingredientes, práticas culinárias e saberes alimentares.
- Literatura, comida e ativismo cultural ou político.

Serão aceitas propostas de comunicação individual, mesas temáticas e painéis interdisciplinares provenientes das áreas de Literatura, História, Estudos Culturais, Antropologia, Sociologia, História da Alimentação e campos afins. Incentiva-se a participação de pesquisadores em diferentes estágios da carreira acadêmica. Ao promover o diálogo entre literaturas e culturas alimentares ao longo da história, este circuito de pesquisa pretende contribuir para o fortalecimento dos estudos sobre os alimentos no mundo lusófono, para a consolidação da alimentação como um campo crítico de investigação humanística.

Palavras-chave:

comida e cultura; história da alimentação; literatura e comida; práticas culinárias; cozinha

Referências

Algranti, Leila Mezam e Sidiana da C. Ferreira de Macêdo. História & Alimentação. Brasil séculosXVI-XXI. Belém: Editora Paka-Tatu, 2020.

Bourdieu, Pierre, et al. A distinção: Crítica social do julgamento. São Paulo: EDUSP Zouk, 2006.

Cascudo, Câmara. História da Alimentação no Brasil (Volume I e II). São Paulo, Cia. Ed.Nacional, 1983. 

Climent-Espino, Rafael and Gómez-Bravo, Ana M (Orgs.). Food, Texts and Cultures in LatinAmerica and Spain. Nashville: Vanderbilt University Press, 2020.

Curtin, Deane W. and Heldke, Lisa M. Cooking, Eating, Thinking. Transformatives Philosophies ofFood. Bloomington: Indiana University Press, 1992.

Lévi-Strauss, Claude. “The Culinary Triangle.” Partisan Review 33 (1966): 586-96. 

Meneses, José Newton Coelho. Mesa farta, gostos diversos. Cozinha e práticas alimentaresda elite mineira (séculos XVIII e XIX). In: Algranti, Leila Mezam e Sidiana da C. Ferreirade Macêdo. História & Alimentação. Brasil séculos XVI-XXI. Belém: Editora Paka-Tatu,2020, p. 418-441.

Montanari, Massimo. Comida como cultura. São Paulo: SENAC, 2024.

Montanari, Massimo. (Org.). O mundo na cozinha. História, identidade, trocas. São Paulo: EstaçãoLiberdade/SENAC, 2009.

Nestle, Marion. Food Politics. How the Food Industry Influences Nutrition and Health. Berkeley: University of California Press, 2013.

Pinto, Júlio Pimentel. Sobre literatura e história. Como a ficção constrói a experiência. São Paulo: Companhia das Letras, 2024.

Pollan, Michael. The Omnivore’s Dilemma. A Natural History of Four Meals. New York: PenguinPress, 2006.

Rocha, Glauber. “Estética da Fome”. Revolução do Cinema Novo, organizado por GlauberRocha. Alhambra/Embrafilmes, 1981, pp. 28-33.

Sedlmayer, Sabrina, Rafael Climent-Espino e Luiz E. Andrade (Orgs.). Comer com os olhos: Comida, cultura, cinema. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2023.

Tobin, Ronald W. “Qu’est-ce que la gastrocritique?” Dix-septième siècle vol. 217, n. 4, 2002,pp. 621-630.

Herança e Memória

Na contemporaneidade, a memória e as suas diferentes declinações - como as memórias herdadas, a pós-memória, as memórias intergeracionais - ocupam o centro dos debates nacionais, transnacionais e globais em diversos campos de conhecimento e na cena política. O estudo da memória, da transmissão e das heranças atravessa hoje a literatura e as artes, a museologia e a curadoria, a historiografia e a geografia, as ciências ambientais e a psiquiatria, o direito e a educação. Em constante reelaboração, mas sempre sublinhando o impacto da(s) memória(s) no processo de invenção do presente, tais conceitos questionam práticas institucionalizadas de pendor colonial face às exigências do mundo pós-colonial em que desejamos habitar.

O circuito de pesquisa que aqui se propõe desenha-se como um espaço de debate interdisciplinar cujos objetivos são identificar, mapear e refletir sobre todas estas dinâmicas. Por este motivo, convidamos investigadores/as de diferentes áreas do saber a submeterem propostas de comunicação que explorem a paisagem literária, artística, educativa e sociopolítica da memória, em sua acepção ampla, das "guerras" que os seus usos inspiram e os caminhos para a restituição em nossas sociedades.

Palavras-chave:

pós-memória; memória intergeracional; transmissão; guerras de memória; restituição; literatura e artes

Referências

CABAÇO, José Luís. 2021. À sombra da utopia: quando eu era nós. Maputo: Fundação Fernando Leite Couto.

CAMMAERT, Felipe. 2022. Passados reapropriados: pós-memória e literatura. Porto: Afrontamento.

CAN, Nazir Ahmed; CHAVES, Rita. 2021. “Empire and literature: From the schism of race to the seism of the ‘other’”. In: Racism and Racial Surveillance: Modernity Matters, edited by Sheila Khan, Nazir Can e Helena Machado. London/New York: Routledge.

CARVALHO, Ruy Duarte de. 2010. “Tempo de ouvir o 'outro' enquanto o «outro» existe, antes que haja só o outro... ou pré‑manifesto neo‑animista”. In: O que não ficou por dizer. Luanda: Chá de Caxinde.

HIRSCH, Marianne. 2012. The Generation of Postmemory: Writing and Visual Culture After the Holocaust. New York: Columbia University Press.

LOPES, Carlos. 2025. A Armadilha do Auto-Engano: Uma visão crítica das relações entre África e a Europa. Lisboa: Tinta-da-china

LOURENÇO, Eduardo. 2024. Do Colonialismo como nosso impensado. Lisboa: Gradiva. (org. de Margarida Calafate Ribeiro e Roberto Vecchi).

MATA, Inocência; ÉVORA, Iolanda. 2022. “As veias abertas do pós-colonial: Afrodescendências e racismos”. Portuguese Literary and Cultural Studies, no. 34/35: 1-7.

MBEMBE, Achille. 2014. Sair da grande noite: ensaio sobre a África descolonizada. Tradução de Diogo Cardoso. Luanda: Edições Mulemba.

RIBEIRO, António Sousa, org. 2021. A Cena da Pós-memória: O presente do passado na Europa pós-colonial. Porto: Afrontamento.

RIBEIRO, Margarida Calafate; CRUZ RODRIGUES, Fátima. 2022. Des-cobrir a Europa: Filhos de Impérios e Pós-Memórias Europeias. Porto: Afrontamento.

ROTHBERG, Michael. 2009. Multidirectional Memory – remembering the Holocaust in the Age of Decolonization. Stanford: Stanford University Press.

SARR, Felwine; SAVOY, Bénédicte. 2018. The Restitution of African Cultural Heritage: toward a new relational ethics. Paris: Ministère de la Culture.

SARLO, Beatriz. 2007. Tempo Passado: Cultura da memória e guinada subjetiva. São Paulo: Companhia das Letras.

SELIGMANN-SILVA, Márcio. 2005. O local da diferença: ensaios sobre memória, arte, literatura e tradução. São Paulo: Editora 34. 

Brasis e portugueses: os línguas e as linguas

Mesmo quando condenado, o monolinguismo continua sendo a lente hegemônica pela qual se lê o que seria a língua e a literatura do território que se insiste em chamar de Brasil. A multiplicidade de línguas indígenas e seus “modos”, incluindo suas literaturas, capaz de fazer Babel se empalidecer diante da Amazônia, na famosa comparação de Vieira, teria se reduzido, devido à violência do processo histórico de genocídio e invisibilização, ao papel de contributo, marginal, quando muito, da transformação do português em português brasileiro e da literatura portuguesa em brasileira, parte de um todo com o qual nunca fez Todo. O que propomos aqui, a partir de abordagens recentes de linguistas, escritores e pesquisadores indígenas, e da prática linguística e literária de seus povos, é pensar a relação, tanto histórica quanto contemporânea, de cruzamento, atravessamento, tradução, entre as línguas nativas e a portuguesa, e entre os seus falantes, os seus senhores da fala e tradutores (os línguas) sob a ótica inversa, a saber, sublinhando a agência nativa em sua capacidade de inserir multiplicidade diante de (resistindo a) violências unificadoras. Processos de redespertar de línguas adormecidas, de constituição de línguas portuguesas indígenas, de multiplicação dos nheengatu, de reapropriação de artefatos materiais e imateriais espoliados, iniciativas de diferentes ordens de publicação e republicação de textos de autoria indígena (de trabalhos acadêmicos a coletâneas de histórias originárias, de livros didáticos a livros de poemas), em língua nativa e/ou em português brasileiro, traduzidos ou escritos diretamente em uma ou outra, a tradução da Constituição Federal para o nheengatu do alto Rio Negro: que outras histórias, que não a do monolinguismo esses brasis e portugueses contam, que outras histórias essas línguas e esses línguas estão construindo no presente?

Palavras-chave:

línguas indígenas; português indígena; tradução; artes da palavra; literatura indígena

Referências

Bomfim, Anari Braz. Patxohã, língua de guerreiro: um estudo sobre o processo de retomada da língua pataxó. Salvador, UFBA. 2012.

Cesarino, Pedro de Niemeyer. (org.) Quando a Terra deixou de falar: Cantos da mitologia marubo. São Paulo: Editora 34, 2013

Fiorotti, Devair Antônio e SILVA, Terêncio Luiz. Panton pia’: Eremukon do circum-Roraima. Rio de Janeiro: Museu do Índio, 2019.

Fiorotti, Sonyellen Fonseca Ferreira. “Uurinîkon Serenkato’ke: somos o que cantamos”. in Lima, Lilian Castelo Branco de; Machado, Ananda (orgs.). Oralidades, escritas e identidades culturais indígenas. Boa Vista: Editora da UFRR, 2023, pp. 8-29.

Lopes, Luzionira de Sousa. Loas e versos Xakriabá: tradição e oralidade / Luzionira de Sousa. Orientador: Prof. Dr. Josiley Francisco de Souza Monografia Licenciatura em Línguas, Artes e Literatura, da Formação Intercultural para Educadores Indígenas da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais. 2016.

Maxakali, Delcida. Hãhãm Yõg Ixkot: escola da terra. Rosângela Pereira de Tugny e Isael Maxakali (orgs.). Belo Horizonte: Formação Transversal em Saberes Tradicionias da UFMG. 2026.

Mehinaku, Yamalui Kuikuro. Aki oto: Api akinhagü – Dono das palavras: A história do meu avô. São Paulo: Todavia. 2024.

Meu amado me disse: os cantos tōlo dos povos Karib do Alto Xingu, Organização e Introdução: Bruna Franchetto; tradução: Yamalui Kuikuro Mehinaku e Bruna Franchetto. Rio de Janeiro: Funarte, 2025.

Neto, Maria Gorete. Reflexões sobre o português falado por povos indígenas: resistência e ressignificação. Rev. Faeeba – Ed. e Contemp., Salvador, v. 31, n. 67, p. 214-231, jul./set. 2022.

Umusĩ Pãrõkumu e Tõrãmũ Kẽhíri. Antes o mundo não existia: Mitologia dos antigos Desana – Kẽhíripõrã. São João Batista do Rio Tiquié: UNIRT; São Gabriel da Cachoeira: FOIRN. 1995 (Coleção Narradores Indígena do Alto Rio Negro).

A Poesia de Língua Portuguesa: indagações do presente e trajetos para o futuro

Neste Circuito, o foco é problematizar a poesia de língua portuguesa produzida nos diversos países que utilizam o português como idioma oficial. Interessa pensar como poéticas diversas enfrentam questões do presente e propõem de forma convergente ou divergente modos de escrita e sua recepção futura. Com abertura para linhas de trabalho diversificado, o interesse é, de certa forma, obter um panorama analítico do que se vem fazendo em termos de poesia nos países de língua portuguesa, seus diálogos interculturais e intersemióticos, inquietações contemporâneas, indagações teóricas e formais e formulações críticas sobre diversos campos que se articulam na escrita poética. Se damos algum destaque à produção dos séculos XX e XXI, não deixamos de considerar a importância de repensar tradições e o interesse em revisitar poéticas do passado com perspectiva atual. Os participantes são convidados assim a apresentar resultados de pesquisas que tenham a poesia de língua portuguesa como centro de atenção, sem desconsiderar possíveis diálogos comparativos e formulações teóricas problematizadores do fato poético, examinando ainda sua circulação, recepção e intervenção. Busca-se também compreender como determinadas noções presentes na crítica contemporânea de poesia reverberam em poéticas produzidas em português, como figurações e desfigurações da subjetividade, fragmentação, hibridismo, minimalismo, expansividade, ecopoética, geopoética, performance, intermidialidade, biopolítica, micropolítica, prosaísmo, metapoética, reescrita da tradição e do cânone, formas breves, práticas de citação, cibercultura e poesia visual. Considera-se ainda a contribuição de estudos de arquivos, acervos literários, bibliotecas e correspondência relacionados a poetas de língua portuguesa. 

Palavras-chave:

poesia de língua portuguesa; crítica poética; teoria poética; interculturalidade; estudos comparados

Referências

COLLOT, Michel. A matéria-emoção [La matière-emotion, 1997]. Trad. Patrícia Souza Silva. Rio de Janeiro: Oficina Raquel, 2018.

CULLER, Jonathan. Theory of the lyric. Cambridge, MA. London: Harvard University Press, 2015.

DEGUY, Michel. Reabertura após obras. Trad. Marcos Siscar e Paula Glenadel. Campinas: Unicamp, 2010.

DEGUY, Michel, “Je – Tu – Il”, Modernités, n.° 8, 1996, pp. 287-297.

JÚDICE, Nuno. As máscaras do poema. Lisboa: Aríon, 1998.

MAULPOIX, Jean-Michel. “La poésie, autobiographie d’une soif”. In: Jean-Michel Maupoix et Cie. Disponível em: http://www.maulpoix.net/autobiographie.html

RABATÉ, Dominique (dir.). Figures du sujet lyrique. Paris: PUF, 2001. 2a. ed.

RABATÉ, Dominique. Gestes lyriques. Paris: José Corti, 2013.

REVISTA Cadernos de Literatura Comparada, Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa, Universidade do Porto. Disponível em:https://ilc-cadernos.com/index.php/cadernos  

REVISTA Convergência Lusíada, Real Gabinete Português de Leitura. Disponível em https://www.convergencialusiada.com.br

REVISTA Elyra, Universidade do Porto. Disponível em: https://elyra.org/index.php/elyra

REVISTA Gragoatá, Programa de Pós-Graduação em Estudos de Literatura UFF. Disponível em: https://periodicos.uff.br/gragoata/issue/archivehttps://periodicos.uff.br/gragoata/issue/archive

REVISTA Texto Poético. Disponível em:https://textopoetico.emnuvens.com.br/rtp/issue/archive

RODRIGUEZ, Antonio, “La voix nʼest plus le sujet. Les interactions face aux objets lyriques multimédias”, Cahiers FoReLLIS – Formes et Représentations en Linguistique, Littérature et dans les arts de l’Image et de la Scène. Disponível em: https://cahiersforell.edel.univpoitiers.fr:443/cahiersforell/index.php?id=1365.

RODRIGUEZ, Antonio. Le Pacte lyrique. Configuration discursive et interaction affective. Sprimont: Mardaga, 2003.

Cartografias da Narrativa: transtemporalidade, intermedialidade e transgressão

A construção do circuito de pesquisa assenta na metáfora da viagem e na sua demarcação, por terrenos teóricos, críticos e operatórios que apontem para o tema genérico do congresso (“Futuro”). Nesse sentido, colocamo-nos no campo alargado dos estudos narrativos, tal como eles, decorrendo da narratologia, têm sido desenvolvidos nas últimas décadas, com forte carga interdisciplinar. Fazem parte dessa deriva as noções de transnarratividade e de transmedialidade, deslocando os estudos narrativos até à revisão de categorias convencionais (como a personagem ou o tempo, p. ex.), em contexto de renovação. Estas aberturas justificam três conceitos que, podendo interagir e completar-se, motivam específicas aproximações exegéticas e debates teóricos: i) a transtemporalidade estimula a leitura de narrativas em interseção  com movimentos da História (e da história literária), potencialmente em dois sentidos: em diálogo com o passado e com a tradição canónica, mas também perspetivando desenvolvimentos futuros (p. ex., novos cânones, novos suportes, novas afirmações de género, novas referências nacionais); ii) a intermedialidade convida a leituras centradas no diálogo entre narrativas com diferentes especificidades mediáticas, não impeditivas da superação de fronteiras (imaginárias) que lhes são atribuídas; a questão das adaptações é apenas uma das possibilidades de trabalho que aqui se abrem, envolvendo a re-mediação de categorias narrativas; iii) a transgressão sugere tanto a rutura de valorações críticas aparentemente  estáveis, como a abordagem de narrativas que, no plano da linguagem, vão além de uma suposta fixidez sociocomunicativa do relato. Em todas estas linhas cartográficas está implícita uma ideia-força: a de que a narrativa recusa postulações estáticas e abre-se a novos horizontes de significação, nos planos histórico, semiodiscursivo, mediático, socioideológico, etc.

Palavras-chave:

estudos narrativos; interdisciplinaridade; intermedialidade; história

Referências

Marie-Laure Ryan (ed.), Narrative across Media. The Languages of Storytelling. Lincoln and London: University of Nebraska Press, 2004; John Pier et Francis Berthelot (ed.). Narratologies Contemporaines, Paris: Éditions des Archives Contemporaines, 2010; Jens Eder et alii. Characters in Fictional Worlds: understanding imaginary beings in literature, film, and other media. Berlin/New York: Walter de Gruyter, 2010. Gabriele Rippl (ed.), Handbook of Intermediality. Berlin/Boston: Walter de Gruyter, 2015; Marie-Laure Ryan et alii, Narrating Space/Spatializing Narrative. Where Narrative Theory and Geography Meet. Columbus: The Ohio State University Press, 2016; Carlos Reis, Dicionário de Estudos Narrativos. Coimbra: Almedina, 2018; Raquel Trentin de Oliveira e Gisele Seeger, A personagem na narrativa literária.  Santa Maria, RS: Editora UFSM, 2022; Marie-Laure Ryan, A New Anatomy of Storyworlds. Columbus: The Ohio State University, 2022; Maria Cristina Cardoso Ribas et alii (orgs.), Estudos de Intermedialidade: teorias, práticas, expansões. Curitiba: Editora CRV, 2022; Ana Teresa Peixinho, Estudos Narrativos Mediáticos, Coimbra: Imprensa da Univ. de Coimbra, 2024 (online); Jan Christoph Meister (ed.), The Living Handbook of Narratology. Hamburg: Interdisciplinary Center for Narratology, University of Hamburg, s.d. (https://www-archiv.fdm.uni-hamburg.de/lhn/index.html ). 

Imagens do futuro e o futuro das imagens

O futuro não tem, a rigor, nenhuma consistência ontológica – a não ser, talvez, aquela que nos acostumamos a reconhecer nas mais variadas formas de ficção, dos mitos às obras literárias, dos desenhos e pinturas ao cinema, das profecias religiosas aos prognósticos científicos, das utopias e distopias políticas à “inteligência artificial generativa”. Portanto, quando falamos de futuro, talvez estejamos falando sempre de imagens do futuro. Constatar essa inconsistência fundamental do futuro não significa negar que, mais cedo ou mais tarde, aquilo que imaginamos, de modo individual ou coletivo, para os tempos vindouros possa se tornar realidade. Significa, pelo contrário, ter alguma clareza quanto ao fato de que qualquer possibilidade de um futuro que não nos seja apenas dado ou, pior, imposto passa necessariamente pela imaginação. Significa, também, levar a sério o exercício ao mesmo tempo poético e político da imaginação. E mais: significa que aquilo que denominamos imaginação não é apenas uma faculdade mental, mas também o conjunto e os efeitos das imagens produzidas materialmente nos mais diversos suportes e por meio das mais diversas técnicas (a própria faculdade mental da imaginação é parte desse conjunto; memórias e sonhos são também produções da matéria). A imaginação que nos transporta ao futuro é, em suma, material e técnica ao mesmo passo que é arqueológica e combinatória, realizando suas prospecções e projeções do porvir a partir das imagens que nos rodeiam no presente, mas também da rememoração e montagem de fragmentos do passado. A ficção científica pode aparecer aí como uma espécie de paradigma, mas somente porque, desde o início da modernidade, de modo mais evidente ou não, toda ficção é científica – mesmo, e talvez sobretudo, aquela que põe em dúvida a pertinência e o poder da ciência, mobilizando outros saberes. Partindo de tais premissas, este circuito de pesquisa receberá propostas concernentes a trabalhos literários, cinematográficos, musicais e artísticos em geral produzidos nos países de língua portuguesa que operem explicitamente a partir das mais variadas formas de imagens e das relações temporais estabelecidas a partir delas. Temos especial interesse em propostas que lidem com o esgarçamento dos limites entre os diferentes códigos e as diferentes artes, por meio de estratégias de tradução intersemiótica, remediação etc. Também queremos acolher propostas especulativas que, ao se debruçarem sobre as imagens do futuro, levem em conta, que nelas está em jogo o futuro das imagens, isto é, o que elas poderão ser e, sobretudo, o que poderão fazer num horizonte sócio-tecno-cultural que hoje só vislumbramos.

Palavras-chave:

imagens; imaginação; literatura; artes; futuro

Referências

Giorgio Agamben, , Ninfe, Torino: Bollati Boringhieri, 2007.

_____, Stanze. La parola e il fantasma nella cultura occidentale (1977), Torino: Einaudi, 1993.

Agra, Lúcio, Monstrutivismo. Reta e curva das vanguardas, São Paulo: Perspectiva, 2010.

Aguilar, Gonzalo e Cámara, Mario, A máquina performática. A literatura no campo experimental, trad. Gênese Andrade, Rio de Janeiro: Rocco, 2017.

Antelo, Raúl, Potências da imagem, Chapecó: Argos, 2004. 

Bolter, Jay David e GRUSIN, Richard, Remediation. Understanding New Media, Cambridge: The MIT Press, 2000.

Didi-Huberman, Georges, Devant le temps. Histoire de l’art et anachronisme des images, Paris: Minuit, 2000.

_____, Devant l’image. Question posée aux fins d’une histoire de l’art, Paris: Minuit,

1990._____, «L’image brûle», em Laurent Zimmermann (éd.), Penser par les images. Autour des travaux de Georges Didi-Huberman, Nantes: Cécile Defaut, 2006, pp. 11-52.

_____, L’image survivante. Histoire de l’art et temps des fantômes selon Aby Warburg, Paris: Minuit, 2002. 

Felinto, Erick, A imagem espectral. Comunicação, cinema e fantasmagoria tecnológica, Cotia: Ateliê, 2008.

Kopenawa, Davi e Albert, Bruce, A queda do céu. Palavras de um xamã yanomami (2010), trad. Beatriz Perrone-Moisés, São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

Lourenço, Eduardo, Obras completas XII: Segundo paraíso – Do cinema como ficção do nosso sobrenatural, org. Pedro Mexia, Lisboa: Calouste Gulbenkian, 2022.

Plaza, Julio, Tradução intersemiótica, São Paulo: Perspectiva, 1987.

Rowland, Clara e Bértolo, José (org.), Assombrações. A inscrição do fantasma, Lisboa: Documenta, 2025.

A leitura e a escrita depois do futuro

Propomos este Circuito de Pesquisa como um espaço de discussão sobre a leitura e a escrita na contemporaneidade, pretendendo abordar aspectos sociais, econômicos, políticos, cognitivos, educacionais, tecnológicos e editoriais do ler e do escrever, no Brasil e em outros países. Recebemos trabalhos produzidos (ou em andamento) inscritos nas áreas de Letras e Educação e em áreas conexas, desde que tenham como objeto de interesse e de investigação aspectos da leitura e da escrita que possam ser debatidos nas relações entre o hoje e o passado, o presente em sua (in)inteligibilidade e/ou o presente e o potencial especulativo para o futuro. São esperados trabalhos que considerem diferentes tipos de desigualdades e assimetrias nacionais e globais que afetam a compreensão e a produção de textos em todas as suas materializações. Discussões acerca da multimodalidade e os recursos semióticos envolvidos nos textos, assim como o impacto de tecnologias envolvidas na produção e na compreensão deles podem contribuir para enriquecer as reflexões sobre os aspectos que impactam a realidade atual da leitura e da produção de textos, assim como nos ajudar a prospectar e projetar o futuro dessas atividades. Reflexões sobre o futuro do texto, da sua produção e da sua recepção, e que envolvem políticas relacionadas ao acesso a ele, seja por via da educação, de projetos culturais, viabilização econômica e de infraestrutura, bem como reflexões sobre as potencialidades envolvidas nessas atividades e os riscos que a falta ou a precariedade delas pode acarretar, podem nos ajudar a expandir a compreensão de fenômenos relacionados à leitura e à produção de textos em nossas sociedades.

Palavras-chave:

leitura; escrita; tecnologias digitais; multimodalidade; letramento.

Referências

BEIGUELMAN, Giselle. Políticas da imagem: vigilância e resistência na dadosfera. São Paulo: Ubu, 2021 

BERARDI, Franco. Depois do futuro. Trad. Regina Silva. São Paulo: Ubu, 2019. (Coleção Exit)

CASATI, Roberto. Elogio del papel. Contra el colonialismo digital. Trad. Jorge Paredes. Barcelona: Ariel/Planeta, 2017.

CAZDEN, Courtney et al. A Pedagogy of Multiliteracies: Designing social futures. Harvard Educational Review, 66, p. 60-92, 1996.

COSCARELLI, Carla Viana. (org.). Tecnologias para aprender. São Paulo: Parábola Editorial, 2016.

FAILLA, Zoara (Org.). Retratos da leitura no Brasil 6. São Paulo: Instituto Pró-Livro, 2025. Disponível em: https://www.prolivro.org.br/wp-content/uploads/2025/06/Retratos-da-Leitura_COMPLETO_com2-3capa-1.pdf Acesso em: 28 fev. 2026.

GORDON, Colette. Reading literature in/against the digital age: Shallow assumptions, deep problems, expectant pedagogies. Convergence, The International Journal of Research into New Media Technologies, v. 29, n. 1, p. 28-46, 2023. Disponível em: https://doi.org/10.1177/13548565221148105 Acesso em: 26 fev. 2026.

HUI, Yuk. Fragmentar el futuro. Ensayos sobre tecnodiversidad. Trad. Tadeo Lima. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: Caja Negra, 2020. (Colección Futuros Próximos, 33)

RIBEIRO, Ana Elisa. Escrever e ensinar a escrever. Um antimanual para docentes. Montes Claros: Editora da Unimontes, 2025.

SOARES, Magda. Novas práticas de leitura e escrita: letramento na cibercultura. Educação & Sociedade, 23, p. 143-160, 2002. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/es/v23n81/13935 Acesso em: 24 fev. 2026.

O futuro no passado: receção, reescrita e ensino dos “clássicos” nas literaturas de língua portuguesa

Este circuito de pesquisa propõe uma reflexão sobre a presença, a circulação, a sobrevivência e a reconfiguração dos clássicos nas culturas de língua portuguesa, numa perspetiva diacrónica que, partindo de diferentes épocas históricas, se prolonga até ao presente. Entendem-se por “clássicos” tanto os textos da tradição greco-latina quanto as obras pertencentes ao cânone das literaturas de língua portuguesa produzidas até ao século XVIII, em Portugal e no Brasil.Pretende-se abrir um debate sobre os modos como autores, temas, géneros, formas, imagens e procedimentos retóricos herdados da Antiguidade ou da tradição literária lusófona foram recebidos, apropriados, traduzidos, imitados, adaptados ou contestados em diferentes contextos históricos. Interessa-nos, em particular, compreender como os clássicos funcionam não só como modelos de autoridade, mas também como arquivos abertos, suscetíveis de deslocamentos, disputas, apropriação, reinvenção e novas interpretações.

O circuito convida igualmente à análise de processos de reescrita e de writing back, nos quais textos, mitos, figuras ou modelos canónicos são revisitados a partir de perspetivas críticas, periféricas, pós-coloniais, feministas, decoloniais ou intermediais. Que usos da tradição permitem questionar o próprio cânone? De que modo a reescrita dos clássicos pode produzir formas de resistência, revisão histórica ou invenção estética? Que continuidades e ruturas se estabelecem entre memória, transmissão e criação?

Serão igualmente bem-vindas comunicações dedicadas ao ensino da literatura e dos textos clássicos em perspetiva histórica ou no contexto contemporâneo. Poderão ser abordadas questões relativas à formação do leitor, às práticas pedagógicas, à tradução, à mediação cultural, à transmediação e às possibilidades abertas pelas humanidades digitais.

O objetivo é pensar os clássicos como presenças em trânsito, como arquivos vivos, atravessados por múltiplas temporalidades e capazes de produzir novos sentidos e de interligar passado, presente e futuro.

Palavras-chave:

clássicos greco-latinos; clássicos do cânone lusófono; receção e reescrita; tradução dos clássicos; ensino da literatura

Referências

Bernardes, José Augusto Cardoso; Mateus, Rui Afonso. Literatura e ensino doportuguês. Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2013.

Bloom, Harold. The Anxiety of Influence: A Theory of Poetry. New York: OxfordUniversity Press, 1973.

Calvino, Italo. Perché leggere i classici. Milano: Mondadori, 1991.Genette, Gérard. Palimpsestes: la littérature au second degré. Paris: Seuil, 1982.

Lefevere, André. Translation, Rewriting and the Manipulation of Literary Fame.London: Routledge, 1992.

Paula Morão & Cristina Pimentel (coords.), A literatura clássica ou os clássicos naliteratura. Presenças clássicas nas literaturas de Língua Portuguesa - Volume V.Lisboa/Famalicão, Centro de Estudos Clássicos/Edições - Húmus, 2021

Mukherjee, Ankhi. What Is a Classic? Postcolonial Rewriting and Invention of theCanon. Stanford: Stanford University Press, 2013.

Zilberman, Regina. Estética da Recepção e História da Literatura. São Paulo: Ática,1989.

Literatura e direitos humanos

A afirmação dos direitos humanos resulta do reconhecimento de que as pessoas “nascem e permanecem livres e iguais em direitos", como expressa a Constituição francesa de 1789. Dos ideais de liberdade e igualdade, nasceram lutas em prol da emancipação política na Europa e na América, a que se seguiram reivindicações de autonomia política, étnica, culto e gênero. A literatura expôs as aspirações libertárias e igualitárias dos diferentes grupos e apresentou-se como um direito ou, como formula Antônio Candido, um “bem indispensável”, a que todos devem ter acesso. 

Com base nessa premissa, o Circuito de Pesquisa Literatura e Direitos Humanos acolhe propostas que discutam a temática, nos seguintes temas:

- Literatura enquanto “bem indispensável”
- Literatura, repressão e censura
- A literatura e os direitos dos povos indígenas
- Escravismo, racismo e literatura
- A literatura e o direito das mulheres
- Leitura, ensino e direitos humanos

Palavras-chave:

direitos humanos; literatura indígena; censura; literatura feminina; leitura

Referências

ARENDT, Hanna. Origens do totalitarismo. Trad. Roberto Raposo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

BOBBIO, Norberto. A era dos direitos. Trad. Carlos Nelson Coutinho. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004.

CANDIDO, Antônio. O direito à literatura. In: ___. Vários escritos. Rio de Janeiro: Duas Cidades; Ouro sobre Azul, 2004.

COMPARATO, Fábio Konder. A afirmação histórica dos direitos humanos. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2003.

HUNT, Lynn. A invenção dos direitos humanos. Uma história. Trad. Rosaura Eichenberg. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

ISHAY, Micheline R. (Org.) The Human Rights Reader: Major Political Essays, Speeches, and Documents from Ancient Times to the Present. 2. ed. New York: Routledge, 2007.

ISHAY, Micheline R. The History of Human Rights. From Ancient Times to the Globatization Era. 2. ed. Los Angeles: University of California Press, 2008.

McCLENNEN, Sophia A.; MOORE, Alexandra Schultheis (Ed.). The Routledge Companion to Literature and Human Rights. Londres e Nova York, Routledge, 2016.

NAYAR, Pramod K. Human Rights and Literature. Writing Rights. New York: Palgrave Macmillan, 2016. Doi 10.1057/978-1-137-50432-6.

ZILBERMAN, REGINA; SALES, G. M. A. (Org.) ; BRUNHARA, R. C. M. (Org.) . Sobre os direitos humanos e a literatura. São Leopoldo; Porto Alegre: Oikos; PPGL UFRGS; 2026.